Antes de mais nada inovador e esteticamente atraente, um bom produto, nas palavras de Rams, precisa ser útil e fácil de se entender. Deve conter tão pouco design quanto for possível. Deve ser durável e produzido com atenção a seus mínimos detalhes. E é, fundamentalmente, comprometido com a preservação do meio ambiente. Em poucas palavras, o ideário defendido por nove entre dez lançamentos apresentados na grande quermesse milanesa do design.
De bem com a vida e inéditos em seus formatos, uma nova safra de móveis, cada vez mais orgânicos e desarticulados, desponta no horizonte. Entre mesas, cadeiras e armários, a flexibilidade de uso se torna palavra-chave, enquanto nos domínios dos estofados (incluindo camas), a descontração é a senha. Sentar, deitar ou apenas se recostar da forma mais cômoda e individual possível são atividades que passam a ser levadas muito a sério. Tão a sério, a ponto de se transformar em pura brincadeira.
Vale, por exemplo, transformar uma simples cadeira em mancebo, como fez a Moooi. Exagerar nas cores como Gaetano Pesce na Meritalia. Ou ainda oferecer um canteiro de cáctus como possibilidade de assento, como fez a dupla de estilistas-designers, Maurizio Galante e Tal Lancman, para a Cerruti Baleri.Na linha de frente de toda uma geração de jovens designers que têm na representação da natureza por meio de materiais sintéticos sua principal via de expressão.
Seriedade mesmo, e disso ninguém parece abrir mão, surge apenas quando entra em cena a preservação do planeta. "Da cabeça aos pés, ela é totalmente natural. Construída com madeira líquida, traz na sua composição cânhamo, bambu, linho. Nos ajuda a entender como será nosso amanhã", derrete-se o über designer Philippe Starck, diante de Zartan, cadeira inteiramente biodegradável, desenhada com Eugenie Quitlet, para a Magis.
Um entusiasmo compartilhado pelo designer de iluminação italiano Michele De Lucchi, que, em ano de Euroluce, vê no advento dos LEDs uma revolução no desenho das luminárias. Segundo ele, é inegável que estamos diante da fonte luminosa do futuro. "Até lá vamos continuar como insetos em volta da lâmpada, tentando desvendar suas potencialidades", brinca, em alusão à J.B. Schmetterling, luminária criada por Ingo Maurer: a mais completa síntese deste momento de transição.
Para além de sua função imediata, fato é que, em Milão 2011, o móvel, em sua dimensão física, mas também emocional, ensaia passos ainda mais largos. E, em direção a regiões até então inexploradas, flerta com a escultura. Dialoga com a moda. Pretende-se eterno, mas biodegradável. "Na verdade, tudo já foi feito. Mas no mundo dos sonhos estamos sempre em busca do novo, procurando por espécies desconhecidas", pontuou Marcel Wanders.
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Paraísos artificiais
O desejo de contato com a natureza leva designers a traduzir formas e texturas em seus móveis
Sustentabilidade e desejo expresso de estar em contato com a natureza são, já há algumas edições, assuntos em alta na Semana de Design de Milão. E assim prometem continuar por muitas outras.
Novidade mesmo, e isso pode ser constatado a cada ano, é a forma como esses temas são tratados.
Elevada à condição de parâmetro estético, a representação do mundo natural por meio de técnicas e materiais abertamente sintéticos povoou a imaginação dos designers. Como que recriando um universo particular, resinas reproduzindo estruturas naturais, como plantas e corais, além de falsas pedras e peles fake, pipocaram por todas as coleções. Sem falar nas avançadas - e cada vez mais realistas - técnicas de impressão digital.
Saltando aos olhos, a dimensão do móvel se amplia para atingir regiões até então inexploradas. Afinal, no mundo do design, parecem existir sempre novas possibilidades capazes de povoar nosso imaginário e nossa casa.
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Móveis fora de série
Entre os lançamentos, objetos que fogem do banal e são imunes a cópias
Na trilha de um consumidor exigente, que pensa duas vezes antes de comprar, mas coloca a exclusividade na dianteira de suas decisões, o mercado internacional de design cresce e se sofistica. Do móvel, não se exige mais apenas uma perfeita performance. Mas o compromisso de assumir uma presença definitiva no espaço doméstico. Fazer a diferença.
Complexos processos de moldagem. Resinas de última geração. Avançadas técnicas de impressão digital e - última palavra entre os fabricantes antenados - iluminação incorporada ao móvel. Para expressiva parcela do design made in Italy, o céu parece ser o limite. Principalmente, quando o objetivo é projetar o móvel além dos limites do banal e do descartável.
Paradoxo realizado, o móvel de design, que de início se pretendia de largo consumo, percorre assim, com evidente entusiasmo, as trilhas do objeto único e exclusivo. Com pretensão de dialogar de igual para igual com a escultura e com a arquitetura. Mas, acima de tudo, cada vez mais imune a cópias.
Fonte: Marcelo Lima/O Estado de S.Paulo - Abril 2011, http://isaloni.it e arquiteta Consuelo Jorge.